O Padre João de Brito de Almeida Atanásio faleceu na madrugada do dia 12 de janeiro, aos 99 anos. Como pároco da Bobadela entre 1985 e 1990 marcou a vida e crescimento dos grupos e paroquianos ao longo destes anos. Lembramos a sua vida e partilhamos um testemunho sobre o seu percurso na nossa comunidade pelo Nelson Belfo.

Percurso do Padre João de Brito na Paróquia

Falar do Padre João de Brito Atanásio não é fácil. Antes de mais, porque enquanto Presbítero da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios sita na Bobadela – Loures foi um privilégio para esta paróquia. 

Tenho ainda retido na memória a primeira missa a que assisti presidida pelo Padre João. Foi um dia de semana (se não me falta a memória a uma terça-feira à tarde) celebrada em frente ao Santíssimo, onde atualmente se encontra o coro nas missas dominicais.

Estávamos no ano de 1978, no dia 1 de outubro. Foi nesta data, que um padre, já de cabelo branco, que poderia aparentar fim de atividade presbiteral, veio para uma capela da Sagrada Família, então integrada na Paróquia de São João da Talha, e com todas as condições para continuar neste registo! Mas não! A sua irreverência que à data apenas ele conhecia, e mantinha em segredo catapultava para os seus sonhos secretos, mas que mais tarde se revelaram concretos e reais. 

Estávamos então numa época pós-revolução em que por razões ideológicas a Igreja era muito contestada, e as vozes em desacordo com a religião se acentuavam. Foi, pois com este contexto sociológico com que o Padre João se confrontou. 

Em termos religiosos à chegada do Padre João existiam duas missas semanais: 3.ª e 6ª feiras, sendo que a missa dominical era única e celebrada às dez horas.

Catequese

A catequese era dada ao Domingo antes da missa. No entanto, a dinâmica do Padre João contribuiu para uma alteração muito grande desta realidade. A sua simpatia e empatia com todas as pessoas fossem ou não frequentadoras das Celebrações Eucarísticas, o peculiar tirar o chapéu a par de um discreto sorriso para com quem se cruzava, contribuiu para um distender de tensões ideológicas, e facilitar um ambiente em que todos tinham o seu lugar! 

Novas pessoas começaram a surgir no fundo da igreja, que aos poucos começaram a integrar grupos e atividades por si incentivadas. 

Neste contexto, tornava-se imperioso para ele encontrar cristãos responsáveis e comprometidos com a Igreja. Foi por esta razão que então ele decidiu solicitar aos responsáveis das Comunidades Neocatecumenais catequeses para adultos, que aconteciam à terça e sexta-feiras pelas 21.30 horas. Estas tiveram um período de duração de três meses. Não foi fácil para ele, pois na verdade chegou a ser acusado de criar um grupo fechado em que os paroquianos que não tivessem frequentado as catequeses não tinham acesso a participar nas celebrações. No entanto esta foi uma imagem que se foi alterando quando os paroquianos em geral foram convidados para participar nas Laudes de Sexta-feira Santa e Sábado Santo. 

Foi com o suporte das pessoas que constituíram esta comunidade, que o Padre João contou para constituir o Conselho Pastoral.

Não satisfeito com este trabalho na Bobadela, decidiu promover catequeses para adultos, também no Bairro da Fraternidade. Estas catequeses tiveram várias consequências. A primeira foi a constituição de mais uma Comunidade Neocatecumenal, a partir da qual, teve a capacidade de sonhar o impensável. A construção da atual igreja do Bairro da Fraternidade, então clandestino.

Este era um bairro onde não existia qualquer serviço religioso, sendo que as pessoas que frequentavam missa o faziam na igreja de S. João da Talha.

O Padre João de Brito teve a perceção de promover atividades para todos os grupos etários com o propósito de estreitar as relações interpessoais entre os paroquianos que frequentavam a missa e os que não o faziam. Na verdade, ele tinha a perspetiva de os que eram mais próximos e com a igreja colaboravam já estavam conquistados. A “luta” dele eram os outros. Foi com esta perspetiva que de uma missa de Domingo apenas na Bobadela, passou a ter três missas na Bobadela e uma no Bairro da Fraternidade.

Se tivermos em consideração que o Padre João de Brito Atanásio esteve na Bobadela durante doze anos, constata-se um crescimento muito apreciável.

As dinâmicas das atividades promovidas pelo Padre João foram direcionadas para três grupos alvo: crianças, idosos e comunidade em geral.

Relativamente às crianças, o padre João sempre considerou que estas não seriam atraídas para a Igreja, nomeadamente para a Catequese, apenas com exposições doutrinárias, mas antes criando momentos lúdicos que cativavam muitas crianças. Entre elas, poderei dar exemplos dos passeios da catequese, no final do ano, as festas de Natal e Carnaval, sendo que para esta última fazia-se o Concurso de Máscaras. 

Paralelamente, cativava os catequistas com pequenos gestos, com a oferta de uma sessão de Cinema com um filme à escolha pelos próprios na época de Natal e que terminava com um pequeno lanche convívio entre os participantes. Esta atividade tinha como objetivo reconhecer o tempo despendido pelos catequistas em favor da Paróquia. 

Um outro momento marcante e que considero com particular relevância, foi o lançamento das bases para o que hoje é o Centro Social e Paroquial da Bobadela. Tudo começa em 1986, quando apenas existia um edifício com vidros junto à então conhecida por praça dos Ciganos na Bobadela, mesmo ao lado do então Café Andorinha.

Nessa altura era necessário preparar minimamente as pessoas que se voluntariaram para servir o lanche aos idosos duas vezes por semana. Foi nesta altura que o Padre João de Brito falou com o Sr. Júlio de Sousa e esposa, D. Orlinda, que enquanto casal, logo se disponibilizaram para ceder gratuitamente o edifício à Paróquia para fins sociais. 

Esta foi uma época muito complicada, pois na verdade não existia qualquer cozinha estruturada, tal como a maioria das pessoas a conheceu. À época o que existia eram bancadas montadas com tábuas de madeira assentes em caveletes, um fogão pequeno de campismo com dois bicos. Na verdade a cozinha que a maior parte das pessoas conheceu já após a primeira e segunda remodelação. 

Mais tarde este espaço em que apenas serviam lanches aos idosos duas vezes por semana passou a ter uma Diretora Técnica, cujo gabinete foi improvisado com biombos, equipado apenas com uma cadeira, uma secretária e um armário de metal cedidos pela Petrogal.

Foi então que esta atividade que à época era desenvolvida apenas de forma voluntária, teve que se profissionalizar, sendo que para tal tiveram muito influência duas Assistentes Sociais, Dra. Zélia e Dra. Alice, assim como a Educadora Social Ana Pires Marques. Estas foram fundamentais para a regularização de todas as valências, hoje existentes, exceto o lar. 

Era esta postura de dar resposta às pessoas de todas as faixas etárias que sempre caracterizou a generosidade do Padre João de Brito Atanásio.

A luta pela passagem da Bobadela a Paróquia

A luta pela passagem da Bobadela a Paróquia foi igualmente uma aposta do padre João Atanásio. Poder-se-á perguntar qual a razão para tal. Podem-se levantar questões tais como: Ideológicas? Políticas? Geográficas? Outra qualquer razão mais obscura? Na verdade, muito se poderia especular sobre qualquer uma destas razões. Mas… na verdade, tal nunca passaria de uma perda de tempo. Apenas um motivo o movia. Era saber que na perspetiva cristã não poderiam ser alimentadas divisões geográficas delimitadas pelos vários bairros adjacentes, os quais não podiam alimentar as barreiras identitárias e de pertença dos seus moradores. Na perspetiva do padre João uma paróquia tinha que ser una, e os cristãos não deviam alimentar barreiras entre si. Foi com base nesta dificuldade conciliatória que à época emergiu a ideia de construir uma igreja na Bobadela. Tenho o dever de aqui sublinhar que foi este facto que levou a população da Bobadela a reivindicar uma igreja para a Bobadela, que consigo arrastou a execução de uma planta e respetiva maqueta que chegou a ser apresentada à Paróquia. A mesma não chegou a avançar por motivo de ficar economicamente mais onerosa. Foi nesta altura em que a Petrogal cedeu a então Igreja do Bairro ao Patriarcado de Lisboa por um período de cem anos.

O testemunho

Como já atrás referi, uma das primeiras decisões do Padre João Atanásio foi a realização de catequeses para adultos, que levaram à formação das Comunidades Neo-catecumenais. Lembro com especial carinho o testemunho que ele deu à Paróquia sobre a sua experiência de itinerância em Lyon/França. Na minha opinião foi um testemunho de cristão e de verdadeiro “abandono” em Deus. Esta postura assentava na passagem bíblica de Abraão perante Deus quando caminhava com o seu filho Isaac para o holocausto e este lhe pergunta pelo cordeiro, ao que Abraão retorque “Deus Providencia”, sendo à semelhança desta confiança que Abraão depositava em Deus que o Padre João Atanásio testemunhava o seu presbitério.

Nelson Belfo